A intolerância nossa de cada dia e o exemplo de um aluno especial
Escola pede que crianças se fantasiem de "faveladas"; ladrão foi detido por populares, mas houve quem quisesse linchá-lo; Augusto Delfino supera limitações e vai se formar na Unisul

O tradicional colégio Fayal, de Itajaí, está no centro de uma polêmica nacional, que já mobilizou artistas, intelectuais e defensores dos direitos humanos. Um bilhete de um professor, encaminhado aos pais dos alunos do quarto ano do ensino fundamental, solicitando que as crianças fossem à aula fantasiadas de "faveladas". A atividade faria parte de uma interpretação de texto sobre a música "Alagados", dos Paralamas do Sucesso. A solicitação realmente foi escandalosa, pela forma discriminatória, preconceituosa, com que o mal preparado professor agiu. O colégio divultou um longo comunicado nas redes sociais, pedindo desculpas pelo ocorrido e anunciou providências internas.
Na tarde desta quinta-feira (29) presenciei uma cena movimentada no centro de Florianópolis. Um carro perseguia um homem pela Rua Nunes Machado e, atrás, seguiam várias pessoas aos gritos de "pega ladrão, pega ladrão!". O rapaz foi alcançado logo após a Kibelândia, na Rua Victor Meirelles. Imediatamente, das janelas dos escritórios, nos edifícios próximos, ecoaram os gritos de "lincha!", "quebra!", "surra!" etc. Exatament aquilo que se lê nas caixas de comentários dos portais de notícias e redes sociais. Gente sedenta de sangue, revelando seu primarismo humano e social. Ninguém agrediu o rapaz, que chorava e pedia desculpas por ter furtado o celular do condutor do automóvel. Sentado na calçada, ele admitia seu erro. Um sujeito vestido de terno e gravata, com traços germânicos, passou e ainda tentou instigar o grupo que rodeava o rapaz, eu incluído. Mas não obteve sucesso.
No dia anterior, na Unisul, um rapaz chamado Augusto Delfino, portador de paralisia cerebral, defendeu seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), sendo aprovado pela banca examinadora. Ele será o primeiro estudante brasileiro com paralisia cerebral a colar grau no curso de Educação Física. Augusto emocionou a todos que prestigiaram sua performance. O aluno venceu todas as limitações imagináveis para, com persistência e apoio da família e dos professores, concluir um curso de graduação. Augusto é um exemplo de como alguém, nestes tempos sombrios, pode vencer o preconceito para se tornar um vitorioso.
Como diz aquele bordão, das pessoas sensatas que frequentam a internet, "mais amor, por favor".
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